O que os dados portugueses sobre jogo não dizem — e porque é que isso importa
Procurar a repartição por sexo dos jogadores portugueses dá em nada. O regulador publica idade, residência e nacionalidade — e mais nenhuma característica.
· Investigação
Este artigo começou como outro. A intenção era escrever sobre o perfil de quem desenvolve problemas com o jogo em Portugal, incluindo a repartição por sexo. Não foi possível, e a razão é informativa.
O que o regulador publica
Os relatórios trimestrais do SRIJ desagregam os registos de jogadores por três características: grupo etário, área de residência e nacionalidade (fonte).
Não desagregam por sexo. Não há, nesses relatórios, nenhum número oficial português sobre quantos dos registos são de homens e quantos são de mulheres.
Porque é que não se pede emprestado
A tentação óbvia é ir buscar uma percentagem a um estudo estrangeiro e apresentá-la. É o que muita da informação disponível em português faz, e é uma má prática por três razões:
- Os mercados não são comparáveis. A oferta legal, o tipo de jogo dominante e a exposição publicitária variam muito entre países.
- Um número sem contexto ganha vida própria. Basta ser citado duas vezes para passar a “dado”.
- Se a fonte não é portuguesa, a frase honesta é “não sabemos”, e essa frase tem valor informativo.
O que se pode dizer com segurança
Que a investigação internacional sobre perturbação de jogo identifica de forma consistente diferenças entre sexos, tanto na prevalência como no tipo de jogo e na idade de início. E que não existe, nos dados públicos do regulador português, forma de verificar se e como isso se aplica a Portugal.
É uma lacuna que vale a pena nomear: sem essa desagregação, as campanhas de prevenção têm de ser desenhadas sem saber a quem se dirigem.
O que os dados portugueses dizem, e é muito
Idade, com detalhe trimestral. Residência por distrito. O peso de cada tipo de jogo no volume apostado. E os números de autoexclusão, que são a melhor aproximação pública à dimensão do problema. É bastante mais do que a maior parte dos setores publica sobre si próprio.
Independentemente do que os dados digam
O acesso à ajuda não depende de perfil nenhum. A Linha 1414 — SOS Jogador, do ICAD — é gratuita, anónima e confidencial, nos dias úteis das 10 às 18 horas, e atende tanto quem joga como quem vive ao lado do problema. A autoexclusão e os limites de depósito estão disponíveis a toda a gente, hoje.